Resgate da história

Penso que tudo se inicia com minha própria história, como sujeito que contribui para construir parte de um sonho. Tomo a liberdade de iniciar meu trabalho de maneira um tanto informal e pessoal, pois, fazendo minhas as palavras de Guerra (1998, p. 7), o que proponho não está muito distante do que experimentei na minha própria vida: a necessidade de buscar uma integração maior entre o estudo, o trabalho e o prazer, por meio de uma educação voltada mais para a pesquisa e que valorize não somente os aspectos intelectuais, mas os aspectos humanos e cósmicos num todo.

Procuro, com isso, em vez de erguer muros, construir pontes; traçar trilhas que possam contribuir para o crescimento do ser humano em sua totalidade. Afinal, também nos dizeres de Guerra,

[…] gastamos grande parte de nossa energia para manter muros. Muros entre o privado e o público; entre compromisso, prazer e ação social; entre escola e vida; entre razão, emoção, corpo e espiritualidade; e, também, entre disciplinas de conhecimento. Quando é justamente a ausência de muros que libera a mais poderosa energia, única energia capaz de nos levar à realização (GUERRA, 1998, p. 7-8).

Retrocedendo na história, tudo principiou em 1973, quando comecei a lecionar aos 19 anos de idade, na cidade de Piraí do Sul/PR. Desde aquele momento, já me incomodavam determinadas formas tradicionais de gerir o conhecimento pelas quais havia sido educada. Esse tradicionalismo, no entanto, embora preponderante, não conseguira apagar as formas diferentes de fazer educação que encontrei no agir pedagógico de quatro professores que tive, que ministravam aulas de Língua Portuguesa, Ciências, Francês e Estudos Sociais, de quinta a oitava série do Ensino Fundamental (na época, ainda chamado “Primeiro Grau”).

Tínhamos aulas de Língua Portuguesa quatro vezes por semana. Quinze minutos antes do término de cada aula, fazíamos leituras individuais de livros que o professor trazia da biblioteca. Líamos, por exemplo, durante o ano inteiro, uma determinada obra. As que mais me marcaram foram As Viagens de Gulliver e Alice no País das Maravilhas. Ao terminarmos a leitura de um livro, contávamos para a turma a história lida. Isso estimulava não somente a leitura, como também o desenvolvimento da expressão oral. Além disso, o professor também contava histórias e, de alguma forma, envolvia todos os alunos nas atividades propostas. Então, aos poucos, fomos amando a Língua Portuguesa e a Literatura.

Nas aulas de Ciências, os trabalhos de campo eram como uma festa. A professora realizava várias aulas práticas, dentre as quais me lembro da saída ao campo para coletar diferentes tipos de folhas, as quais catalogávamos e colávamos num caderno que ela recolhia e dava as notas. Enfim, envolvia-me totalmente no processo de aprender a viver.

Os quatro professores mencionados não eram tão jovens, mas tinham uma vasta experiência e vontade de fazer o diferente, respeitando as peculiaridades de cada educando. Existia muito entusiasmo, alegria e amor, e com eles aprendi que o mais importante era o amor.

Dessa maneira, eles me impulsionaram a construir um novo modo de ensinar. Lembro-me de um episódio de minha vida estudantil que reforça meu desejo de encontrar uma metodologia de ensino que envolva o educando no processo de aprendizagem: eu e uma colega costumávamos fugir das aulas de Zoologia. Um dia, o professor dessa disciplina encontrou-nos no corredor e disse: “Se não assistirem às minhas aulas, serão reprovadas por falta!” Desde então, assistíamos às referidas aulas de corpo presente. Das aulas de Química, por outro lado, nós não fugíamos, pois nelas eram aliadas teoria, prática e, o que é melhor, a ‘química da afetividade’.

Entrei na faculdade de Licenciatura em Ciências e, no último ano, em 1973, comecei a lecionar, continuando até 1977. De 1978 a 1980, saí do magistério para participar de uma experiência de Leigas Consagradas a Deus. Seis meses depois de minha experiência religiosa, tendo ficado oito anos longe dos bancos acadêmicos, retornei à universidade para cursar Licenciatura em Biologia. Grande parte efetiva do quadro docente agora estava cursando pós-graduação. Permaneceram os mais antigos, dos quais me lembro de um, em especial – o professor de Botânica. Ele levava um caderninho com folhas amareladas para a sala de aula. Seus ex-alunos diziam que era o mesmo de 20 anos atrás: o mesmo conteúdo, os mesmos exemplos, os mesmos exercícios e as mesmas provas. Em resumo, nosso entusiasmo de aprender encontrava-se tão amarelo quanto as páginas do caderno.

Tentando superar as limitações em relação a esse e outros modos de ensino, participei de projetos de pesquisa do CNPq e monitoria. Disso resultaram duas excursões: uma para o Pantanal Matogrossense, a fim de estudar as plantas e as aves, e outra para a Reserva Ecológica do Taim, no Rio Grande do Sul. Buscava encontrar respostas, conhecimentos, aquilo que eu não achava naquelas aulas extremamente teóricas. Participei também de congressos e encontros acadêmicos que ampliaram a minha compreensão de que a escola deve preparar o educando para a vida.

Rumei para a área de Zoologia, queria alçar vôo em busca de novos horizontes. Desenvolvi projetos de pesquisa com pássaros e morcegos. Abriram-se portas para que eu ingressasse num curso de mestrado em Curitiba, para trabalhar com ratos. Quando estava no estágio preparatório para o mestrado, já com orientador definido, problemas de saúde me impediram de ingressar no curso. Mas duas questões me intrigavam: Qual o alcance social de uma pesquisa com ratos? Para que serviriam esses estudos?

Ao abrir mão dessa perspectiva, busquei outros caminhos que poderiam me levar rumo a um sonho que era o de lecionar na universidade. Em 1984, morando então em Florianópolis, substituí uma professora por um período de três meses no Instituto Estadual de Educação, atuando em quatro turmas do segundo ano do Ensino Médio (na época ainda Segundo Grau) noturno.

Logo no primeiro mês, começaram as inscrições para a feira de ciências. Meus colegas educadores diziam-me que não adiantava falar com os educandos do período noturno, pois eles não se motivariam. Como não acreditava nisso, comecei um trabalho de motivação e estímulo para que eles se engajassem na feira de ciências. Como resultado, as quatro turmas inscreveram-se e dei suporte a todos, levando-os à universidade para conversar com docentes e profissionais que atuavam nas áreas que eles escolheram. Esses educandos ganharam os prêmios de primeiro e segundo lugares da feira, dentre seis mil alunos, reafirmando aquilo que eu já sabia: investir, acreditar e apostar nos alunos, amá-los e acompanhá-los pode levá-los a superar suas barreiras e limitações, apresentando resultados surpreendentes.

Há uma história popular que reflete essa questão da postura de confiança no potencial do educando; ela nos mostra a imensa capacidade interior que temos e da qual não tomamos posse. Segundo a história, duas crianças estavam patinando sem preocupação sobre um lago congelado em uma tarde nublada e fria. De repente, o gelo se quebrou e uma das crianças caiu na água. A outra criança, vendo que seu amiguinho se afogava debaixo do gelo, pegou uma pedra e começou a golpear o gelo com todas as suas forças, conseguindo quebrá-lo e salvar seu amigo. Quando o socorro chegou, percebendo o que havia acontecido, perguntaram ao menino como ele teria conseguido fazer aquilo, usando apenas uma pedra e suas mãos tão pequenas. Foi então que um ancião respondeu com sabedoria: “Eu sei como ele conseguiu; não havia ninguém ao seu redor para dizer-lhe que ele não seria capaz”.

Em 1986, ao ser aprovada em concurso público estadual, assumi uma cadeira de professora de Ciências na Escola Básica Francisco Tolentino, em São José/SC. Transformei o almoxarifado da escola num laboratório de Ciências e, partindo da vivência dos educandos como filhos de pescadores, passamos a colecionar peixes da região. As crianças traziam os peixes, os vidros e o álcool para acondicioná-los, e também as informações como o nome popular de cada um. Ficavam inclusive depois da aula para a realização dessa tarefa, tudo com muita alegria! Nas aulas posteriores, os peixes eram estudados, explorados e era possível ver como os educandos ficavam radiantes quando percebiam seus nomes como doadores nos rótulos dos peixes que eles traziam.

Anos mais tarde, quando eu não estava mais lá, outros educadores fecharam o laboratório, alegando que cheirava mal, pois tinham que manter continuamente o acondicionamento dos peixes, e que essa experiência não trazia resultados satisfatórios para o ensino.

Nesse meio tempo, me afastei da sala de aula por problemas de saúde. Surpreendi-me com uma grande manifestação de carinho de um grupo de alunos do colégio de São José, no qual era regente (responsável pela turma mediante a coordenação pedagógica). Ao saberem de meu problema de saúde, foram até onde eu morava, na Chácara de Espanha, com flores, bolo, presentes, e mostrando-se extremamente agradecidos pelo pouco tempo que passamos juntos, dizendo: Professora, a senhora foi a única que acreditou no nosso potencial, muito obrigado!

 Figura 1: Alunos da E. B. Francisco Tolentino, em São José (1987)

Em 1987, retornei a Piraí do Sul, por ocasião da morte de meu pai, lá ficando por um ano. Lecionei Ciências na sétima série do Colégio Santa Marcelina, o colégio de freiras onde estudei até a quarta série primária. A experiência com eles foi maravilhosa: fazia círculo de leituras com os alunos, entregando a um dos educandos da sala uma série de bons livros, que os demais liam e devolviam. Os livros circulavam pela sala o ano todo.

Mais tarde, em 1989, fui para o Colégio Getúlio Vargas, em Florianópolis, onde criei o Canteiro de Chás, com uma equipe multidisciplinar formada por professores de outras áreas e um agrônomo, Álvaro Simon. Resgatamos, com os avós e com os pais dos educandos, os nomes e as utilidades das mais diversas plantas da região que servissem como chás medicinais. A escola e os pais das crianças passaram então a utilizar esses chás. Na feira de ciências do colégio, os alunos apresentaram o resultado desses trabalhos, levaram textos que explicavam as utilidades de cada chá, oferecendo aos visitantes da feira os referidos chás. O trabalho repercutiu, garantindo grande sucesso e muita alegria para os educandos, que, até então, não se davam conta do potencial que tinham e do que poderiam desenvolver.

Em turmas de quinta a oitava série, eu trabalhava com experimentos que os próprios educandos criavam. Depois, eles apresentavam os referidos experimentos em sala de aula, como aula prática de determinados conteúdos. Todas foram experiências marcantes, e não somente para mim, conforme pude verificar em alguns depoimentos de alunos que tive o prazer de reencontrar ao realizar minha pesquisa do Mestrado.

Júlio Antônio Mainardes, que foi meu aluno na sétima série, em 1975, lembra que o que mais o marcou quando fui sua professora foi a complementação da teoria com a prática, e o amor e carinho com que conduzia as aulas, que o fizeram gostar mais das aulas e da figura do educador. Hoje, formado em Administração de Empresas, reconhece que a escola deve se preocupar com os aspectos emocionais dos educandos. Segundo ele, estamos tratando de pessoas e não de máquinas; portanto, o emocional faz parte de suas vidas.

Iriverto Mainardes Leite, que foi meu aluno da terceira série, lembra com alegria das brincadeiras e da atenção especial de carteira em carteira. Conta que o que mais gostava em seus professores em geral, aquilo que fazia suas aulas interessantes, era quando chegavam na sala de aula sorridentes, aplicando a matéria com brincadeira na forma de ensinar.

Cleyton Rafael de Souza Milléo, aluno da sétima série em 1987, acha que é fundamental a escola se preocupar com o emocional dos educandos, principalmente na fase da adolescência, quando surgem muitas dúvidas e atitudes inconscientes acabam sendo tomadas. Ele considera que os professores deveriam passar por um preparo para que possam agir com sabedoria, para tratar dos distúrbios emocionais do educando. Acredita que a escola contribuiu para a formação do seu caráter, ao apontar o certo e o errado, os prós e os contras de cada situação e pela repreensão severa, mas não violenta. Cleyton comenta que teve muitos professores “céticos e arcaicos”, e acredita que essa postura se deva ao fato de se tratar de uma escola particular, dirigida por uma ordem de religiosas, com uma disciplina rígida e de que os professores temessem ser repreendidos pela direção. Segundo ele, a maneira alegre e inovadora de ensinar fez os educandos sentirem-se mais à vontade e cativados, porque, até aquele momento, seguiam uma didática padronizada e ultrapassada. Ele diz que, apesar de ter sido somente um ano, foi muito gratificante.

Antônio Anhaia Filho, da mesma série de Cleyton, ressaltou que o emocional dos educandos pode afetar o seu rendimento escolar, já que o ser humano é um todo, e, por isso, a escola deve preocupar-se. Para ele, a escola teve papel fundamental em sua vida, pois é uma segunda família e tem muita importância na lapidação do caráter. Recorda-se com alegria das viagens, campeonatos e trabalhos, e também de quando teve de fazer uma entrevista e depois apresentá-la em sala. Hoje, Antônio é jornalista.

 Figura 2: Eu, Antônio e Profa. Ephigênia
  Adriana Solak Teixeira foi minha aluna na sexta série, em 1987, e até hoje recorda-se da amizade e do carinho com os educandos, e de um momento inesquecível que fora um lanche em minha casa, onde foi realizada uma dinâmica, em que cada educando combinava uma fruta com seu nome. Quanto aos aspectos emocionais, ela acredita que a escola deve mesmo se preocupar com eles, pois “as crianças de hoje estão com seu emocional muito abalado, são hiperativas, têm depressão, têm estresse, e a escola é um ótimo aliado da família para que juntos possam dar uma boa formação para esses futuros cidadãos”.

Para Dirce Aparecida Castanho, que foi minha aluna em 1977, na quinta série, o que marcou do meu trabalho foi o carinho e a atenção com que trabalhava, sempre com uma palavra amiga que, segundo ela, despertava o interesse dos educandos para todas as aulas. Algumas atitudes que seus professores tomavam para tornar as aulas mais atraentes eram contar histórias e fazer brincadeiras que envolviam os educandos, chamando a sua atenção para a aula. Ela diz, ainda, que se lembra de mim como professora, amiga, companheira, dedicada e lutadora.

Maria Tereza Gonçalves, que não lembra o ano em que foi minha aluna, lembrou-se bastante de tudo o que viveu naquele ano de escola. Daquilo que a marcou do tempo em que fui sua professora, diz:

 Primeiramente, algo que ainda vivo presente era o teu gosto pelo trabalho, tinha sempre uma atitude alegre e estava sempre presente, pelos corredores, pelo pátio, por onde estávamos. Lembro de um álbum de botânica que fizemos. Saímos na natureza encontrando plantas que nos chamassem atenção para depois classificá-las e eu fiquei com esse olhar, depois, por um bom tempo. Hoje, vejo que foi um trabalho precioso, no qual as características pessoais estavam presentes na escolha das plantas, o lúdico e a interação com o grupo, tanto na coleta como depois na descoberta do que havíamos colhido, foram muito importantes e a apresentação das plantas distintas, em que houve uma troca bem gostosa… Foram muitos aspectos didáticos e de crescimento pessoal, de formação pessoal na pesquisa, na apresentação. Tudo isso tinha um tom muito particular, com uma certa informalidade que permite a criatividade. Trata-se de ajudar o aluno a ser pesquisador, a ter gosto pela matéria e a integrá-la na vida cotidiana.

A importância de frisar esse fato (a coleta de folhas) tem intrincada uma atitude de fé do professor nessa capacidade de pesquisa que é inerente ao ser humano, mas cuja potencialidade é minimizada por algumas formas que se dizem pedagógicas ou educativas. A criança, desde que nasce, é uma pesquisadora do mundo que a rodeia, mas o modelo de educação vigente até os dias de hoje, com poucas exceções, cerceia essa capacidade em vez de estimular sua expansão. Continua Maria Tereza:

É um trabalho mais exigente, sem dúvida, e me parece que você tinha essa disponibilidade de ensinar-nos a aprender de uma forma única como sua característica natural. Nada parecia forçado. Sem dúvida, um jeito autêntico para a época e o lugar.

Quando lhe perguntado se a escola deve se preocupar com os aspectos emocionais do educando, respondeu:

 Vivo uma certeza quanto a isso, educar exige, além de o conhecimento específico, atitudes de educador. Aí, num segundo momento e logo ao lado da família e das relações próximas, é que aprendemos valores humanos ou desumanizantes, formas de relacionamento, interação com o mundo do conhecimento e com as pessoas, regras de convivência etc. A escola constitui um espaço de sociabilidade, onde está muito presente a pessoa com as características que tem, com o que lhe é distinto e a convivência com o outro, o outro colega, o outro que está chegando agora, o outro professor, o outro que cuida do pátio, o outro autoridade (diretor, vice etc.). Um outro aspecto interessante é o de que é um lugar que, não raro, fazemos amigos, escolhemos ou nos interessamos por um determinado grupo ou pessoas. Tenho relações de amizades duradouras, com as quais mantenho contato até os dias de hoje, que se formaram nesse espaço da escola e em todos os níveis de primeiro, segundo e terceiro grau. A escola é um espaço de formação de pessoas por excelência, obviamente tem a sua especificidade, jamais substituirá a família, jamais substituirá o governo na assistência, jamais substituirá um profissional que cuide de problemas emocionais e é importante que assim seja. Mas tem seu papel na formação de pessoas e, se assume isso conscientemente, tem mais chances de realizar essa tarefa com êxito.

Ela se recorda com alegria de muitos momentos: caminhadas pelo bosque e as sapecadas de pinhão no colégio Santa Marcelina, as festas juninas e de folclore, os trabalhos de pesquisa na biblioteca, a festa das nações do Colégio Jorge Queiroz Neto, alguns professores fantásticos que contavam histórias da cidade, os passeios extraclasse, estudar sobre a adolescência na adolescência, os passeios no Parque das Brotas e, em especial, os encontros de Gen 3 (Geração Nova), que se misturavam entre uma organização pessoal e da escola. Sobre os métodos que seus professores utilizavam para deixar as aulas mais interessantes e atraentes, lembra:

experimentos químicos em laboratório ou com o que construíamos, a técnica da plantinha do feijão para que cuidássemos e acompanhássemos seu crescimento (feijão no algodão), passeios para observação, leitura de texto em grupo, apresentações de trabalhos em grupo, idas à biblioteca, aqueles fatídicos manuais do corpo humano, o nosso esqueleto que deve estar por lá ainda…

E encerra dizendo:

Foi muito especial ter retornado a esse passado, algumas lembranças são difíceis de ser acessadas e as vivo um pouco confusas. Tenho até uma certa dúvida se fui sua aluna por um ano todo, se vivi isso por meio do meu irmão e de dinâmicas fora da sala de aula. Mas o fato é que foi uma pessoa marcante na minha vida, pela escuta que tinha comigo, pelo seu jeito de ser, pelas oportunidades que me proporcionou. Pela educação rígida paterna, eu não tinha muitas chances de convivência com grupos externos, de contato com pessoas diferentes, não tinha chances de viagem fora da família.

Os grupos externos de GEN3 que frequentamos, em Ponta Grossa, foram muito especiais. Eram momentos em que eu podia viver certa autonomia, me relacionar com pessoas diferentes, ampliar horizontes, verificar o que queria de projeto futuro, adquirir, reafirmar ou questionar valores que circulavam pela minha vida. Isso tem um peso real na pessoa, na mãe, na mulher, na profissional que sou hoje e com os valores que tenho e que estão na base de todas essas relações: solidariedade, respeito, gosto pelas diferenças, responsabilidade social, crença numa relação de transcendência, senso de justiça social, o crédito de que podemos construir uma sociedade mais justa, mais igualitária, mais humana. Nasce em mim um agradecimento profundo por você e outras professoras que tiveram comigo uma relação humanizadora e que, de alguma forma, fazem parte da construção da minha história.

O tempo passou, abandonei o magistério e fui atuar em outras áreas; no entanto, sabia que estava no lugar errado. As pessoas com quem convivia notavam que a sala de aula era o meu espaço. Após refletir e ouvir sugestões de amigos resolvi voltar para o magistério. Mas, como trabalhar em sala de aula depois de tanto tempo afastada de tudo? Voltei a estudar. Na verdade, nunca deixamos de ser alunos, estamos sempre aprendendo, pois, no dizer de Fialho (2002), “o cérebro que não é aprendente, empedra”.

O mestrado parecia ser o caminho promissor para a construção teórico-prática de processos educativos voltados para o afeto, nos quais se trabalha o amor próprio, amor pelos outros, amor pelo saber. Enfim, “o amor é a emoção que constitui o domínio de ações em que nossas interações recorrentes com o outro fazem do outro um legítimo outro na convivência” (MATURANA, 1998, p.22).

Ser professora, para mim, é cumprir uma missão que tenho dentro de mim de poder construir junto com os educandos um ‘novo saber’, trocar conhecimentos, aprender a auto-observação, a ser crítica, a sentir as emoções, enfim, estar conectada. Neste momento do planeta, percebo que um grande número de pessoas estão desconectadas da essência. É todo um sistema de produção que nos leva cada vez mais para fora de nós. O desafio é reconectar com a essência.

Desde quando comecei a lecionar, sentia muita alegria ao compartilhar com os educandos o aprendizado, a partir da vivência deles, investir, acreditar, apostar, amar, acompanhar os educandos, poder levá-los a superar suas barreiras e seus limites. Somos aprendentes o tempo todo. Procurei despertar nos educandos um amor maior por eles mesmos, aguçar a sua criticidade, desenvolver o lado espiritual, artístico, leitura e o contato com a natureza. Enfim, o trabalho holístico, da visão do homem integrado.

Cada educando era único, eu procurava vê-los com suas qualidades e ajudá-los a perceber e expressar o que eles tinham de melhor. Organizamos passeios, encontros espirituais, círculos de leitura. Eles apresentavam, em sala de aula, material para aulas práticas confeccionado por eles mesmos, dando aula, organizando material para laboratório, participando de feiras de ciência, organizando canteiros de chás, ao ponto de eles se surpreenderem com o que não imaginavam que pudessem fazer, criar, construir.

Reencontro hoje, após vinte, trinta ou quarenta anos, educandos que me dizem lembrar de um cartão, de um livro, das aulas, do que aprenderam para suas vidas, o lado espiritual que floresceu e deu sentido às suas caminhadas.

Em julho de 2002, Sônia Café no Centro de Vivências Nazaré[2], em Nazaré Paulista/SP, hoje Uniluz, ao saber do meu trabalho sobre pedagogia da afetividade, disse que eu precisava conhecer Jogos Cooperativos que tinha tudo a ver com o meu trabalho. Fiquei sabendo do 5º Congresso Holístico Pan-Americano a ser realizado em Florianópolis, onde haveria uma oficina de Jogos Cooperativos. Nesta oficina, descobri que este era o caminho que eu também queria trilhar, e que de alguma forma inconscientemente eu já incorporava muitos desses princípios em minhas atividades como educadora.

Dois meses depois, fui convidada para fazer uma oficina, com alunos do curso de Pedagogia da UNISUL e outros profissionais que trabalhavam com educação infantil, num total de 25 (vinte e cinco) pessoas. Trabalhei na oficina o tema “A arte dos Jogos Cooperativos”. Ao iniciar a oficina me senti realizando a missão que tenho nesta vida que é ser educadora. Durante a oficina e depois na avaliação pude perceber atitudes concretas. De um dia para outro eles colocavam em prática com eles mesmos e seus alunos o que aprendiam, como é o caso da respiração e jogos.

Em junho de 2003 sem ter contato com eles reencontro uma das alunas que hoje é coordenador na Comunidade Chico Mendes e que me pediu para fazer um trabalho com funcionários e professores que estavam desarmonizados. E como a oficina mudou a vida dela e ela pôde passar muito do que aprendeu também para seus alunos, ela me convidou para fazer um trabalho de Jogos Cooperativos.

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